Pedro Cezar Ferreira

Chegamos no meio do mundo, o território que dividiu as civilizações do Ocidente e do Oriente. Conhecer uma cidade muçulmana é uma oportunidade de ouvir melodias que abraçam toda a atmosfera com suas curvas sinuosas e a força misteriosa de uma reza. Por que uma cidade canta cinco vezes por dia? Enquanto os sons preenchem os espaços, o pensamento silencia ao ouvir o adhan.

No Oriente, terra da eterna aurora nascente, o adhan, canto-reza, começa assim que o sol aparece no horizonte, às seis horas da manhã, e se repete ao meio-dia, no meio da tarde, na hora do poente e à meia-noite.  No ano 600 d.c., Maomé disse para Bital, um ex-escravo, que os fiéis deveriam ser chamados para a oração de maneira sofisticada. Para atender ao profeta, Bital começou a cantar as melodias da convocação dando início ao primeiro adhan da nossa Era.  

De acordo com as palavras recebidas, qualquer devoto disposto a cantar sobe até o topo de uma das torres finas e pontudas das mesquitas, os minaretes, e começa o chamado para a oração feito antes da reza. Esse muezir, cantando melodias próprias, passa a ouvir outras melodias vindas de mesquitas vizinhas e os minaretes parecem antenas emissoras de louvor a Allah, o Absoluto. Tente usar a imaginação e ouvir muitas melodias espalhadas no ar.

Os cantos do adhan demarcam o ciclo diário da Terra girando no próprio eixo. A cada instante, um ponto cardeal recebe a luz do sol iniciando a volta na circunferência. Junto à luz do sol, o som musical do chamado é seguido das cinco orações diárias, o salah. Na prática da fé, se houver um muçulmano em cada ponto do planeta para iniciar o canto-reza, o louvor será eterno. A intenção do louvor é marcar os pontos no ciclo infinito do tempo e alimentar a Terra de som todos os dias. O adhan-canto seguido do salah-reza é uma corrente de vibração de amor infinito que quer abraçar o planeta. Na prática das cinco orações, uma grande reunião dos irmãos de fé espalhados pelo mundo acontece diariamente. Para os muçulmanos, o propósito do canto-reza é manter vivas as palavras e o compromisso da fé em Allah.

LUA DO ISLÃ
A composição LUA DO ISLÃ é uma adaptação de uma canção de ninar cantada por minha avó materna. Não encontrei referências dessa melodia em nenhum lugar. O muezir Idris faz o adhan, o chamado para a oração, que repete o mesmo texto nas diferentes melodias. A voz do adhan foi adicionada ao arranjo muito depois da gravação do piano. O canto está na íntegra, sem edições ou cortes, porém o texto da reza foi interrompido porque o propósito foi usar a melodia como música e não de forma religiosa. Banhados pela mesma lua, um encontro musical aconteceu entre um acalanto brasileiro e o canto-reza muçulmano.

Pedro Cezar Ferreira

Maulana Rumi, filho do mestre espiritual e teólogo Baha’ ud-Din Walad, havia se tornado o legítimo herdeiro e sucessor de seu pai. Na metade da vida, já era um mestre, conhecedor de filosofia, poesia clássica, teologia, jurisprudência e moral. Recebeu os segredos do conhecimento inspirado pelas dimensões mais profundas da via mística e alcançou o respeito e a admiração de centenas de discípulos.

No dia 28 de novembro de 1244, Rumi organizava uma pilha de livros próximo a um espelho d’água e falava com entusiasmo a seus alunos, quando um homem apareceu inesperadamente. Depois de escutar algumas palavras, perguntou ao mestre o que continham aqueles livros. Ao ser interrompido, Rumi respondeu com frieza:

— Aqui só há palavras, tu não sabes o que é isso!

O estranho homem apanhou alguns livros e os jogou dentro d’água.

Rumi ficou furioso com a audácia do intruso. Aquele ser acabara de destruir os manuscritos de seu pai com muitos ensinamentos. Agora os livros estavam encharcados. Não existiam cópias em nenhum outro lugar. Tudo estava danificado.

Com calma, o homem enfiou a mão na água e retirou todos os volumes intactos. Entregou- os para Rumi que, ao folhear as páginas, percebeu que estavam todas em branco. As palavras de Baha’ud Din desapareceram e todos mostram-se perplexos com o ocorrido!

— O que é isso? Perguntou o mestre.

— Isso é o que se chama êxtase ou estado espiritual. Tu não sabes o que é isso! Agora poderás escrever tuas próprias palavras nas páginas vazias.

Com estas palavras o estrangeiro retirou-se. Rumi saiu desesperado em busca do estranho homem, abandonando seus discípulos sem dar explicações. Reconheceu que havia testemunhado a fé de um buscador da Verdade Suprema e desejou profundamente abandonar todo o saber supérfluo e submeter-se a um mestre à altura de sua exigência.

O encontro de Maulana Rumi com o Shams de Tabriz fundiu dois homens espiritualmente realizados. Eles permaneceram quarenta dias em comunhão e isolamento, dia e noite ocupados nessa união mística. Não saíram uma única vez e ninguém ousou interrompê-los. Esse período passou para história como “o encontro de dois oceanos”.

Rumi deixou seus discípulos sem aulas e sem conversas. Dedicou-se exclusivamente à troca e comunhão com seu novo amado, o “sol”, em árabe shams, vindo de Tabriz. Shams era um espírito livre, descendente da tribo síria dos Hashishins, cujas práticas rituais admitiam estados alterados de consciência e êxtase místico através da dança. Maulana Rumi cultivava as letras clássicas, tinha uma personalidade serena e seguia os passos de seu pai. Enquanto estiveram juntos, os dois homens eram ora mestre ora discípulo e assim se tratavam mutuamente. Reconheceram o encontro de duas almas prontas para a Verdade.

Acontece que alguns alunos de Rumi estavam profundamente enciumados com o relacionamento dos dois. Sentiam fome e sede dos pensamentos do mestre. Desde a chegada de Shams, foram privados da convivência e exclusividade dos ensinamentos místicos de que sempre usufruíram. Não admitiam que o mestre abandonasse sua posição de guia para comportar-se como um aprendiz. Na visão dos discípulos, Maulana Rumi tornou-se desrespeitoso com a ortodoxia religiosa, passando a ouvir música e a dançar, logo ele que sempre considerou a música uma atividade pecaminosa. A mudança de caráter do mestre foi atribuída ao aparecimento do estrangeiro e à sua má influência. Os discípulos conspiraram e planejaram dar um fim em Shams de Tabriz.

Na madrugada do dia 5 de dezembro de 1248, Rumi e Shams conversavam a sós quando foi solicitada a presença do estrangeiro nos fundos da casa. Shams saiu para o jardim e foi apunhalado por um dos alunos. Seu corpo desapareceu no poço que havia na parte de trás do terreno. O Sol do Amor Divino deixou de brilhar. Shams de Tabriz, uma manifestação da luz da Verdade, apagou-se para sempre e Rumi, enlouquecido, passou a vagar pelas ruas de Konya.

Um belo dia, passava na frente da oficina de um velho amigo, o ourives Salah Zarkub e, ao escutar as batidas do martelo, começou a girar entrando em transe.  Quando Zarkub percebeu que o mestre estava girando por horas, atirou-se aos seus pés. O amigo reconheceu a comunhão espiritual com o cosmos tanto nos movimentos da dança quanto nos poemas que Rumi recitava durante o giro.

Vem,

Te direi em segredo

Aonde leva esta dança

Vê como as partículas do ar

E os grãos de areia do deserto

Giram desnorteados

Cada átomo,

Feliz ou miserável,

Gira apaixonado

Em torno do Sol

Perguntado sobre o significado daquela estranha dança, Rumi afirmou que tudo estava em movimento. Ele podia sentir a circulação do seu sangue, das partículas no ar, das órbitas dos planetas e dos minúsculos grãos de areia. Esclareceu que apenas respondia ao chamado divino. Em plena rua, Maulana dançou o sama, uma dança êxtase na qual a pessoa faz um giro em torno de si enquanto percorre um círculo maior, com um eixo projetado no centro. A dança é o movimento de rotação e translação dos planetas em torno do sol. Sama, que em árabe quer dizer audição, é também um dos nomes ou atributos de Allah no Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos) e significa “aquele que tudo ouve”.

O amante, ardendo na separação do insubstituível amado, transcendeu a figura humana de Shams e dirigiu seu amor para toda a manifestação. Através da dança e dos poemas, Rumi respondeu ao chamado que soprou nos seus ouvidos. A vida lhe falava com amor. Assim nasceu a coleção de poemas Divan de Shams de Tabriz e o sama, a dança dos dervixes girantes, executada por homens que pertencem a uma vertente mística do Islã, os Sufis.

Perguntado sobre o significado daquela estranha dança, Rumi afirmou que tudo estava em movimento. Ele podia sentir a circulação do seu sangue, das partículas no ar, das órbitas dos planetas e dos minúsculos grãos de areia. Esclareceu que apenas respondia ao chamado divino. Em plena rua, Maulana dançou o sama, uma dança êxtase na qual a pessoa faz um giro em torno de si enquanto percorre um círculo maior, com um eixo projetado no centro. A dança é o movimento de rotação e translação dos planetas em torno do sol. Sama, que em árabe quer dizer audição, é também um dos nomes ou atributos de Allah no Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos) e significa “aquele que tudo ouve”.

O amante, ardendo na separação do insubstituível amado, transcendeu a figura humana de Shams e dirigiu seu amor para toda a manifestação. Através da dança e dos poemas, Rumi respondeu ao chamado que soprou nos seus ouvidos. A vida lhe falava com amor. Assim nasceu a coleção de poemas Divan de Shams de Tabriz e o sama, a dança dos dervixes girantes, executada por homens que pertencem a uma vertente mística do Islã, os Sufis.

RUMI
A composição RUMI é o instante do primeiro giro dado por Maulana Rumi entorpecido pelo som das batidas do ourives de Konya. O piano faz uma rítmica próxima da ciranda, com acentos nos primeiros tempos dos compassos e o tema tem um desenho harmônico-melódico que é tocado três vezes. A flauta, com bastante ar no sopro, é tocada da maneira como se toca na tradição musical dos dervixes e o tambor (bombo leguero) entra na terceira vez que o tema recomeça para indicar a intensificação do giro. É um desenho dos sons no início do movimento corporal que responde ao desejo de conexão com o amor divino.

Paulo Arena

Aos que acreditam, Allah se manifesta indiretamente pelo reflexo. A crença devotada torna possível alcançar a verdade absoluta, mas essa verdade não pode ser alcançada diretamente da fonte, tamanha a potência insuportável emitida pelo Criador. 

A fonte de luz e seu reflexo correspondem ao sol e à lua, os dois luminares que se complementam para traduzir os segredos da vida espiritual, símbolos da verdade e de sua face visível. O profeta Maomé, ao falar de Allah, traduziu a imagem do Sol-Criador como correspondente ao Deus-Criador. Nas suas palavras:

— Deus se oculta com setenta mil véus de luz e escuridão: se Ele os levantasse, o esplendor de sua face consumiria todo aquele que o mirasse.

 Maomé deixou claro que ninguém pode olhar diretamente para o sol sem cegar. Na impossibilidade de contemplar Deus na sua realidade última, os fiéis tocam sua face através do seu reflexo e nos seus diferentes esconderijos.

Por essa razão, Maomé é chamado de a “Lua do Islã” ou aquele que espelha e representa o sol. A lua-Maomé é a presença refletida de Allah, o sol-Criador. Maomé é o brilho da verdade para ser vista a olho nu como reflexo da luz de Allah, pois traduziu em palavras os ensinamentos que dele recebeu, podendo falar em seu nome. A importância do profeta e desse luminar está explícita no calendário muçulmano organizado pelo ciclo da lua. Se você puder observar, a imagem da silhueta da lua crescente coroa algumas cúpulas das mesquitas, desenhando o perfil de muitas cidades islâmicas.

O par sol/lua é um símbolo importante para revelar as nuances da poesia tradicional persa e árabe e as características de uma cultura repleta de entendimento sobre o movimento do céu.

Uma história de amor espiritual entre dois homens buscadores da verdade se passou na cidade de Konya, no centro da Turquia, na metade do século XIII. Nesse encontro, o par sol/lua desdobrou-se em amante/amado ou mestre/discípulo numa união mística e amorosa entre Jalal ud-Din Rumi, conhecido como Maulana, e Shams ud-Din de Tabriz.

Pedro Cezar Ferreira

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