PARA FINALIZAR

Como foi sua viagem literária e musical? Cheia de imagens, sensações, estranhamentos e maravilhas? Espero que sim. 

Falei para você que as histórias são pedaços de eternidade, foram contadas no passado, mas elas permanecem e contribuem para criar cumplicidade nas comunidades que as mantêm vivas. Os estudiosos da pré-história concordam sobre a revolução causada na maneira de viver do Homo Sapiens quando a linguagem e as narrativas começaram a falar daquilo que não existia, foram usadas para fantasiar e criar realidades invisíveis, as ficções. Em volta da fogueira, falavam sobre os deuses e entidades que nunca viram e, por compartilhar das mesmas histórias, aumentaram a rede de cooperação com outros grupos, fazendo crescer o número de membros dos bandos.

O uso do som para veicular histórias é antigo. Em muitas sociedades, a história dos fatos e acontecimentos veio por meio dos cantos e o passado foi trazido ao presente por poetas-cantores, seres que funcionavam como bibliotecas ambulantes em sociedades que viveram sem a necessidade do papel escrito. Maioria no passado, hoje são poucas as comunidades que mantêm a tradição de forma oral.

Na antiga Índia, os Vedas, escritos poéticos sobre os rituais da religião bramânica e os Upanishades, sobre meditação e ensinamentos práticos, foram transmitidos como hinos. Eram mantras para serem cantados ou recitados de modo a conduzir a mente pelas correntezas das verdades eternas.

Na Grécia homérica, o aedo, acompanhado de seu instrumento de corda, a phórminx, compunha e cantava poemas de caráter épico. Homero foi considerado o mais importante aedo da sua época. Aidós, significa cantor. As récitas dos aedos não se prestavam só para divertir e alegrar os banquetes dos ricos. Eram eventos importantes por seu caráter informativo, pelo papel na educação e formação dos jovens e uma maneira dos povos gregos tomarem conhecimento dos acontecimentos nos territórios do mar Egeu e nos territórios conquistados.

Os árabes e muçulmanos, desde sempre, têm enorme fascinação por histórias, lendas e poesias. Antigamente, toda aldeia tinha o seu contador de histórias. Em algumas cidades, como Cairo, Damasco e Constantinopla, os contadores reuniam-se em verdadeiros sindicatos. Cada corporação era dirigida pelo contador de maior prestígio e autoridade, cujo título de cheik el-medah significa “o chefe dos contadores do café”.

Nas aldeias africanas existiu e ainda existe o contador de história chamado griô. Professor, músico e poeta, o griô canta os feitos dos heróis, heroínas e os acontecimentos que precisam estar sempre presentes na cultura da comunidade. Ele guarda narrativas, explicações sobre a vida e fatos marcantes do passado. As crianças aprendem com eles contos e canções tradicionais e, mais tarde, passam adiante, mantendo viva a memória daquele povo, sua identidade histórica e cultural.

Autoridade espiritual da tribo, o xamã morre para a vida dos homens e nasce para o mundo dos espíritos. Conhecedor das imagens e das palavras infinitas que povoam a floresta, narra as histórias da origem de seu povo. Ele sabe que os espíritos são a verdadeira fonte de conhecimento porque habitam a floresta desde os primórdios dos tempos. Por ser capaz de ouvir os espíritos, um xamã pode falar e cantar como eles. Ensina, cura e guarda as histórias do passado, garantindo a preservação dos rituais da comunidade.

Reserve um tempo para pensar nas histórias que você ouve desde criança e de que forma elas contribuem para sua visão de mundo, para as crenças e memórias da sua família, da sua escola, da sua cidade. As histórias desempenham um papel formador na nossa educação. Histórias compartilhadas comunicam e alimentam valores, direcionam comportamentos e modelos de vida, transmitem uma visão de mundo para o presente e projetam os desejos para o futuro. Por isso, elas são repetidas e adaptadas ao longo do tempo. Finalizo após ter ocupado um dos meus lugares favoritos: tocar e falar de música. Sobre os lugares, cito o historiador brasileiro e contador de histórias, Joel Rufino dos Santos, ao comentar a conjugação de “aqui” por um aluno que jurava se tratar de um verbo:

— “Eu aqui, tu ali, ele acolá, nós na frente, vós atrás, eles no meio” (…) Ser ou não ser não é exatamente uma ação, mas um lugar: o lugar é o que sou e, portanto o cara acertou.8

 8  Joel Rufino dos Santos ao citar as memórias de Nelson Werneck Sodré no Colégio Militar no capítulo “Século XXI – O leão marinho e o contemplador do mar”, p. 157 do livro Assim foi (se me parece).

Paulo Arena