O COMEÇO

ilustração: Pedro Cezar Ferreira


OS TEXTOS DESTE APANHADO DE HISTÓRIAS são um convite a passear pela fantasia e pela realidade, pelo universo mágico de personagens e acontecimentos narrados por fatos e sonhos contidos em contos, mitos e lendas. Vamos viajar por cinco cantos do nosso planeta imerso no silêncio e escutar histórias cruzadas no espaço e no tempo pela magia da música. O som será nosso guia para o passado. Mas será mesmo que as histórias estão no passado? Ou serão as emissárias da eternidade, conforme disse o mineiro contador de histórias, Rubem Fonseca?

Sou professora de música, comecei a tocar piano na infância, fiz graduação e mestrado em História. Sou também formada em Composição, toquei e cantei com muita gente e, por conta do trabalho e da diversão, viajei bastante por este mundo. Um dia, em conversa com meus alunos de doze a vinte anos da Escola de Música do Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, brotou em mim um enorme desejo de contar que música é um assunto infinito e que o som acontece de muitas formas, e até no silêncio. Perceba que ele pode acontecer nos instrumentos e nas vozes, mas também – e isso é mágico! – na vibração delicada do encontro entre seres humanos. Você já experimentou uma sensação de harmonia com alguém?

Comecei esta pesquisa quando um colega me mostrou a Canção dos Homens, da poetisa Tolba Phanem. Esse poema me inspirou a criar a história de uma tribo em Gana onde cada criança, ao nascer, recebe uma canção para si. O papel protagonista que a música desempenha na vida daquelas pessoas me incentivou a procurar outras histórias para refletir a respeito da importância de escutar. Assim, comecei a colecionar contos, mitos e lendas do mundo.

Quando inventamos uma motivação, que no meu caso foi colecionar histórias sobre o som, o nosso desejo atrai o necessário para continuarmos o movimento nessa direção. Foi assim que chegou a mim o som da palavra-mantra Aum, também escrito Om, conhecido na Índia há oito mil anos, e a história sobre o músico Tansen. No primeiro capítulo, contarei episódios da vida desse músico indiano que conseguiu manipular a matéria por meio do canto.

Em seguida, me lembrei de Pitágoras, considerado o pai da teoria musical do ocidente. Ele deu explicações matemáticas para a harmonia entre o céu e a terra e, antes de se tornar o filósofo do cosmos, foi reconhecido por um xamã vindo da Ásia Central como sendo a reencarnação de Apolo. Os dois trocaram muitas ideias, e o resultado foi o despertar da consciência pela escuta e os escritos pitagóricos sobre harmonia. Narrarei essa história no capítulo dois.

Na vibração do meu propósito, as histórias continuaram a vir ao meu encontro. Por acaso, ou não, fui presenteada com um livro de poemas do século XIII feito na Pérsia, hoje a Turquia, chamado Divan de Shams de Tabriz, do grande poeta Rumi. Lendo os poemas, conheci a palavra sama, audição em árabe. Essa coleção de poemas místicos, considerada como uma das maiores expressões de toda a tradição persa e árabe, é o resultado do amor espiritual entre Maulana Rumi e Shams de Tabriz. Sama, originalmente audição, passou então a ser o nome da dança dos dervixes, místicos do Islã, revelada a partir da escuta do plano divino. Essa história de tradição muçulmana eu contarei no capítulo três. 

Por fim, me aproximei da relação dos indígenas do Brasil com o som das palavras. Foi difícil, entre tantas tradições e povos que falam dessa magia, escolher histórias sobre a escuta e sobre o som. No penúltimo capítulo, narrarei uma experiência sonora vivida por um xamã Yanomami e uma história Tupi Guarani sobre o “ser de escuta”.

As histórias escolhidas são versões pessoais do que encontrei nessas lendas, em livros de música, de história, mitologia e poesia. Procurando enriquecer a imaginação do leitor, há informações complementares, espalhadas nos capítulos, sobre contextos religiosos, filosóficos e sociais de cada história que podem ajudar a compreender melhor a música da qual estamos falando.

Durante o período de pesquisa e escrita, minha motivação inicial também se desdobrou em criar sons para essas histórias. Fui capturada pelas narrativas e passei a procurar, no piano, melodias e harmonias que de algum modo se relacionassem com elas. Este livro tornou-se uma coleção de histórias com sons nas suas mais variadas formas de expressão. Hoje, ofereço esses sons para você.

A música imaginária que vai surgir dos mitos, lendas e relatos desta coleção pertencem ao reino do ilimitado, do “pré-individual”, quando ainda estávamos conectados com a fonte criadora. Consegue imaginar essa rede interligada? Sons contidos no mar de informações, intuições e fantasias soltas no espaço de conexão entre você, eu e os habitantes da Terra. Que tal tentarmos a experiência da rede através de sons imaginários? O estudo da linguagem musical contém poesia, a potência de criar outros mundos, dar outras respostas para a vida quando ela está aprisionada na repetição do tempo cronológico e cotidiano. Esse tempo endurecido nos faz ouvintes desatentos se for a única experiência possível. A música da qual falaremos pode abrir espaço para um outro tempo, o seu tempo subjetivo, o seu “tempo próprio” 1, pode ser capaz de abrir um caminho novo pela escuta. Para mim, o tempo se faz musical quando dialoga com tudo o que existiu no passado, existe no presente e existirá no futuro.

Antes de embarcarmos no som das palavras, preciso falar do silêncio. Ele é meu ponto de partida e recomendo o mesmo para você ao ler/ouvir as histórias e as composições. Para mim, ler/ouvir o som das palavras e escutar músicas foi um aprendizado e tanto, uma fantástica experiência de abertura para conhecer diferentes culturas do mundo. Agora somos eu, você e o mundo, num movimento que parte do pequeno para o grande, no sobe e desce do balanço de uma onda que agora nos aproxima.

¹ Amnéris Maroni, no livro Fotografando o Invisível, nomeia a qualidade do tempo que revela beleza, alegria e um sentido maior porque é abertura onde brotam novas possibilidades existenciais, onde brota o ser.

próximo capítulo: