Pedro Cezar Ferreira

No princípio de tudo, antes dos clarões da aurora, quando o tempo ainda percorria espirais, Brahmam reinava absoluto. Do mais profundo de si, brotou o desejo de ser mais do que um. Ele desejou ser muitos e, no mesmo instante, uma vibração movimentou aquele desejar, criando todas as partículas de vida através da sílaba sagrada do Aum. Por ser assim, o universo, as galáxias, os planetas, os minerais, a flora, a fauna e o homem, enfim, tudo o que existe, é o resultado das vibrações do Aum. Essa informação sonora é a fonte, o DNA de tudo, desde a gestação do mundo.

E foi assim que a fonte criadora irrompeu como som. A vibração diferenciou o que no princípio era somente um. Incompreensíveis na sua forma transcendente, os deuses foram revelados pela vibração, tornando-se Brahma, o criador; Vishnu, o mantenedor e Shiva, o destruidor. A trindade divina do hinduísmo é a multiplicação, resultado do Aum.

Contam os Vedas, os mais antigos textos escritos em língua indo-europeia, que essa sílaba contém o corpo sonoro do absoluto, a somatória total do que é.  O Aum apareceu há mais de oito mil anos e todo o universo é pura consequência. Na antiga Índia, para trilhar o caminho da compreensão, era obrigatório praticar o mantra.

Filha da onda sonora, toda a existência se expande e se contrai em movimentos para cima e para baixo, de som e silêncio, como uma dança cósmica invisível. Shiva, o deus destruidor, é algumas vezes representado executando essa dança cósmica, com seus quatro braços. Destrói a forma para que a vida possa sempre renascer do desejo criativo de Brahma. O deus Vishnu, que pode ser visto sentado no trono de cobras, é o símbolo da consciência absoluta. Ele é o guardião do presente e mantém o movimento de tudo o que existe. Esse deus pode ser retratado dormindo no leito do sagrado rio Ganges, embalado no ritmo das águas, sonhando com você. Nos textos sagrados, os sonhos de Vishnu somos nós. Segundo os escritos védicos, todas as formas de vida foram conectadas ao primeiro pulso, ou impulso, dado pelo criador Brahmam através do Aum.

AUM
A composição AUM é o nascimento do universo na forma da trindade divina dos deuses Brahma, Vishnu e Shiva. Represento o som de um parto cósmico onde as forças vitais são as frequências se misturando até encontrar o harmônico total do Aum. Nessa música, toquei, sentada no chão, as cordas do piano de armário da minha casa percutindo-as com crótalos e baquetas de metal. É a única música feita fora do estúdio e gravada com um celular posicionado dentro do piano. Trabalhei o som como textura para provocar um estado de estranhamento, já que o Aum é uma experiência complexa, uma vibração que abarca tudo. No 1:26 min entram notas definidas que sugerem uma acomodação temporária na luta pelo nascer. No 2:26 min, o embate volta aos poucos e cresce até o fechamento da composição com o ressoar do grande harmônico de três batidas graves.

Pedro Cezar Ferreira

Tansen, também conhecido como o “conquistador do som”, trabalhou para o lendário imperador Akbar (1566-1607). O período de ouro desse governo foi marcado pelo renascimento cultural na Índia e pela construção de uma das sete maravilhas do mundo, o Taj Mahal, a pedido do neto do imperador, o príncipe Shah Jahan. Essa história começou banhada pela lua cheia.

Havia um parque em Agra que recebia visitas frequentes de arruaceiros. Tansen foi contratado para fazer a vigília noturna do parque e, ao perceber a entrada de um grupo suspeito, imitou o rugido de um tigre com tal perfeição que o grupo desapareceu, amedrontado pelo ruído.

 Porém, os suspeitos eram alunos do grande mestre Haridas. Quando o mestre soube do acontecido na noite anterior, convidou Tansen para ser seu aluno e aprender a arte do canto.

Na Índia, os cantores são lendários por seu poder hipnótico. O imperador Akbar tinha muitos músicos a seu serviço, mas seu favorito era Tansen, por realizar milagres quando cantava. Na música tradicional indiana, as melodias são chamadas de ragas e são construídas com propósitos específicos.  Sua música desabrochava flores, escurecia o céu num dia de muito sol e suas performances eram verdadeiros encontros com a deusa Sarasvati.

Como era previsível, os colegas tornaram-se invejosos da preferência do imperador por Tansen e, num belo dia, persuadiram Akbar a fazer um pedido desafiador ao seu cantor predileto.

Dito e feito: o imperador encomendou um concerto especial para ouvir o temido raga Dipak, o raga do fogo, considerado perigoso por provocar fortes ondas de calor e até acender velas, colocando em risco a vida dos espectadores. Tansen percebeu que o imperador estava irredutível quanto à sua performance e então decidiu chamar sua filha Sarasvati (que tinha o mesmo nome da deusa) e a amiga Rupvati e ensinar a elas o raga Megh, raga da chuva. No dia da apresentação, por precaução com a segurança de todos, as deixou a postos, prontas para cantar a base melódica das monções.

Já nas primeiras notas do concerto, a onda de calor tornava-se quase insuportável e a temperatura aumentava a cada frase do raga Dipak. O olhar de Tansen se dirigiu às duas moças e elas começaram a entoar o raga Megh. Imediatamente o céu escureceu e caiu uma forte chuva que refrescou todo o ambiente. O perigo de incêndio foi eliminado e o músico terminou o concerto de forma brilhante.

Passados alguns dias, Akbar pediu aos serviçais a presença de Tansen. O imperador estava curioso sobre o passado e os estudos daquele grande músico:

— Quem foi seu guru, Tansen?

— Alguém de grande renome a quem chamam de “A Música em Si”.

O imperador pediu para conhecê-lo, mas Tansen disse que seria impossível a presença do mestre nos palácios do imperador. O cantor sugeriu viajarem até as altas montanhas do Himalaia onde o encontrariam numa caverna, vivendo num templo musical em sintonia com o infinito.

Os dois partiram numa longa jornada. Quando estavam próximos à caverna, o guru começou a cantar, tamanha a felicidade ao ver os dois caminhando em sua direção. Da sua voz saiu uma vibração de extrema beleza e doçura que cobriu a escuridão das paredes. Era uma presença inexplicável que preenchia todo o ambiente, mas não ocupava espaço. Akbar e Tansen mergulharam em estado de samadhi, a concentração profunda, sentindo paz e tranquilidade e assim permaneceram por muitas horas. Passado algum tempo, quando abriram os olhos, não viram ninguém além deles mesmos. O mestre havia deixado a caverna.

É verdade que, na Índia, muitos mestres passam a vida dedicados ao silêncio e vivem isolados. Tansen sabia que Haridas nunca mais retornaria para aquele lugar, uma vez que fora encontrado o seu local de meditação secreto. Tansen disse ao imperador Akbar que poderiam então retornar para casa e, assim, voltaram para Agra sem trocar uma palavra, vivendo cada minuto do agora. O deus Vishnu fazia-se presente no ritmo da respiração e dos passos dos dois.

De volta ao palácio, o soberano perguntou ao favorito sobre as melodias do raga que haviam escutado no alto do Himalaia e pediu para que o Tansen cantasse novamente. Ele reproduziu exatamente as mesmas notas, mas Akbar não entrou em transe como havia acontecido na presença do mestre. O imperador estranhou a sensação muito diferente e ficou pensativo. Passado algum tempo disse:

— São as mesmas melodias, ouço exatamente as mesmas notas, mas o efeito em meu corpo e em meu espírito é outro, muito distante do que experimentamos com a voz de Haridas. Não sinto a vida passando como um rio em mim como ocorreu no alto da montanha. Me sinto ignorante, mas tenho certeza de que você tem uma resposta. — Grande Akbar, o que vou dizer é a mais pura realidade e muito simples de ser compreendido. Eu canto diante do meu imperador, mas meu mestre cantou diante dos Deuses!

TANSEN
A composição TANSEN foi feita para os sons e cores que acabavam de entrar na vida do jovem e futuro cantor indiano. Imaginei a apresentação de dois músicos da corte incumbidos de tocar, num fim de tarde, para o imperador Akbar. O acorde inicial e o final são uma referência aos harmônicos da cítara. A rítmica inicial dessa composição não tem a regularidade a que estamos acostumados com os ritmos brasileiros. Os compassos têm subdivisões diferentes e você pode perceber essas mudanças ao bater os pés e contar quantas batidas cabem dentro de cada parte da música.

Pedro Cezar Ferreira

Se o Aum está presente em toda manifestação, será possível o ritmo das órbitas dos planetas atuarem nas ondas cerebrais, na multiplicação das células do nosso corpo, na respiração e no ciclo das reencarnações? Para responder a essa pergunta são necessárias algumas informações sobre a língua e a cultura indiana, algumas referências que explicam as conexões entre o macro e o microcosmos na visão bramânica. O bramanismo, ordem religiosa muito antiga, registrou os ensinamentos numa língua escrita e usada só por sacerdotes que traduziram uma visão de mundo espiritualista. Essas palavras escritas há tanto tempo trazem consigo a cultura tradicional do hinduísmo que chegou até nós por este caminho. Existem outros caminhos de interpretação mas vamos seguir pela estrada da religião. 

Sarasvati, deusa do conhecimento e da música, governa a ciência, a filosofia e a religião, tornando esses assuntos inseparáveis, ou seja, uma escola não pode existir sem a outra. Sim, na Índia, o músico tradicional é um cientista, um filósofo e acima de tudo um ser religioso!

O sânscrito, uma língua que revela mais de um significado para a mesma palavra, aprofunda e integra áreas de conhecimento como a música, a yoga e o hinduísmo. Por exemplo, a palavra “som” em sânscrito é a palavra “nada”. Ela significa tanto a ressonância produzida nos corpos físicos, como também a ressonância produzida no corpo astral.

Através das polaridades da energia feminina (na) e do fogo de Shiva (da) estão representadas a criação e a destruição, o movimento característico de sobe e desce, o nascer e morrer, a impermanência da vida no som da palavra mantra do

Experimente fazer esse som que começa com a boca aberta e termina com a boca totalmente fechada produzindo um som nasal.

Um outro exemplo está na palavra nadi que significa a corrente invisível de conexão das energias do corpo físico com o corpo cósmico, o universo passando pelo corpo humano. Nomeia os fluxos de energias etéreas, invisíveis, mas essa mesma palavra, nadi, é o nome dado ao rio ou à correnteza. Na Índia, a troca de energia vital, na forma de vibração entre o homem e o universo, é uma realidade. Use sua imaginação para visualizar o corpo cósmico — estrelas e planetas — fluindo para os seres humanos e entrando no corpo através dos chakras, os centros de recepção e fruição energética. Os chakras são as portas de entrada no nadi

É difícil descrever com palavras, mas é possível fazer uma experiência com o som universal. Visualize as ondas sonoras do Aum percorrendo os espaços, como os rios fluindo para o oceano que é você. Na sua forma invisível, o Aum atravessa o cosmos e chega até nós misturando-se com os quatro elementos: o fogo, a terra, a água e o ar. 

Vamos continuar investigando o sentido das palavras para apreciarmos melhor a música indiana. Lendo da direita para esquerda, o nome das bases melódicas, os ragas, transformam-se em sagar, seu anagrama ou palavra ao contrário. Sagar é o nome sânscrito dado para o oceano, o lugar onde desembocam todos os rios e todas as energias que percorrem o nosso planeta Terra. De forma semelhante ao caminho das águas em direção ao mar, as melodias são captadas do cosmos pela intuição do músico, conectando o universo e os humanos. Lá na Índia, ou aqui mesmo, toda vez que um raga é tocado ou cantado, é desejável abrirmos os chakras para sentir, como vibrações, a conexão entre o céu e a terra.

Mais uma informação importante: todo raga, ao ser intuído pelo músico, nasce com um sentimento e com uma cor.  Todo o ambiente contribui para as características do som, até a estação do ano e a hora do dia.  Um raga é a conexão entre um sentimento, uma cor e uma melodia.

A palavra para designar cor em sânscrito é ranja, que tem a mesma origem semântica da palavra raga, significando que as bases melódicas existem para colorir o espírito. As melodias materializam as sublimes vibrações de cor e som captadas do plano astral, celestial e cósmico pelos músicos, pessoas treinadas para alinhar seus chakras cardíacos com essas frequências e afinar o instrumento ou a voz sintonizando as ondas produzidas no universo.

A música clássica indiana pratica a conexão entre diferentes planos da existência. Quem estuda música tem uma necessidade muito grande de aprofundar-se em diferentes assuntos e adquire um treinamento físico, mental e espiritual rigoroso para desempenhar bem sua tarefa.

Não por acaso, os deuses mais importantes do panteão hindu são músicos: a deusa Sarasvati e o deus Shiva dedilham as sete cordas do universo em sua rudra vina, um instrumento confeccionado com sete cordas esticadas num bambu adaptado a duas cabaças. Também o deus Krishna, uma das reencarnações de Vishnu, é um flautista e representa os atributos da compaixão e do amor. 

Devido ao alto nível de vibração que o som produz, a música pode provocar doenças se entoada de forma errada ou sem a devida compreensão do seu propósito espiritual. A criança que deseja se iniciar na arte do som precisa ser aceita por um mestre para receber oralmente as preciosas bases melódicas e rítmicas, os ragas e as talas. Passados muitos anos, o estudante faz a iniciação chamada gandá, finalizando a fase de estudos. O gandá é um fio colocado no pulso direito do iniciado e representa a união do músico com uma egrégora espiritual de músicos celestiais. Depois de iniciado, ele passa a pertencer a uma escola-linhagem, também chamada de gharana. A religião bramânica não é uma ordem natural do mundo. Ela propõe uma ordem social, uma forma de organizar a hierarquia dos humanos e dos músicos particularmente.

Para nós, ocidentais, a música clássica da Índia tornou-se popularmente conhecida nos anos 60 através do músico Ravi Shankar, mestre de cítara, que participou do festival de Woodstock, em 1969, e foi guru de George Harrison, dos Beatles e de muitos outros artistas. Sua gharana, a linhagem espiritual à qual pertence, é chamada de Binkar. Essa linhagem começou no século XVI com a filha de Tansen, o cantor cuja história ilustra a relação entre o espírito e o som, dois assuntos inseparáveis.

Pedro Cezar Ferreira

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