Paulo Arena

Orfeu, ainda criança, ganhou sua lira, um instrumento de cordas para dedilhar, do deus Apolo quando esse deus olímpico se refugiou na Terra. Filho de Calíope e educado pelas musas, ele ficou versado no instrumento e passou a compor suas próprias melodias. Sua música era linda e até os pássaros silenciavam para ouvi-lo tocar.

Já adulto, apaixonou-se por uma moça chamada Eurídice. Estavam profundamente comprometidos no amor quando, numa manhã ensolarada, Eurídice saiu para passear na floresta, foi picada por uma cobra venenosa e morreu. Ao receber a triste notícia, Orfeu decidiu que iria descer ao reino dos mortos para trazer sua esposa de volta.

Ninguém com vida jamais descera ao reino dos mortos, mas ele iniciou a jornada determinado a negociar com o próprio deus dos Infernos. O primeiro obstáculo era atravessar o rio Estige, banhado pelas águas venenosas da tristeza e da aflição e, para isso, precisaria pedir ajuda a Caronte, o barqueiro do subterrâneo. O transporte em sua barca só era permitido para as sombras dos sepultados que tivessem pagado uma passagem. Nenhum mortal vivo poderia entrar na fúnebre e estreita barca, salvo se carregasse consigo um ramo de ouro consagrado. Orfeu, porém, só carregava sua lira e ouviu de Caronte:

— Volte! Nenhum ser humano vivo pode passar daqui.

Orfeu imediatamente começou a dedilhar as cordas da lira e a beleza de sua música fez Caronte chorar. Compreendendo a tristeza daquele homem perdido, ofereceu a travessia do rio em sua barca.  

Do outro lado da margem, ele deparou-se com Cérbero, o cão de três cabeças, amarrado com laços de serpentes e próximo à porta do palácio de Hades. Seus dentes afiados penetravam até a medula e injetavam um veneno mortal em quem se aproximasse sem autorização. Novamente as cordas da lira vibraram uma melodia de acalanto e o terrível monstro adormeceu, liberando a passagem para a porta do Inferno.

Orfeu procurou pelo soberano e avistou o temível Hades. Ele estava sentado no trono de ébano, segurando as chaves que trancam as portas irremediavelmente fechadas de vidas que passaram para a “Grande Região Inferior”.

Agora ele estava diante do deus e de sua esposa, Perséfone:

—Eu te imploro, oh Hades, deus do submundo! Permita voltarmos juntos para a superfície, eu e minha esposa, Eurídice! Nosso amor alimenta minha música e eu não posso viver e nem tocar na ausência da minha amada e na dor que me consome.

Enquanto contava sua história, Orfeu tocou a lira.

Perséfone, profundamente comovida, interferiu em defesa do músico. Argumentou que ela também podia sair e visitar sua mãe uma vez por ano, desde que fora raptada por Hades, para garantir seis meses de estações férteis. Ter sido levada para o Inferno deixou sua mãe, Deméter, a deusa da agricultura, furiosa, mas essa é uma outra história.

A esposa convenceu o deus dos Infernos a permitir que os dois amantes voltassem juntos para a superfície. Hades consentiu. Porém impôs a condição de que o olhar do casal não se cruzasse enquanto os dois estivessem nos reinos subterrâneos. Teriam que percorrer a longa jornada de volta sem trocar olhares, nem uma única vez, caso contrário a amada retornaria ao Inferno para sempre. Enquanto Orfeu aceitava a condição imposta, Eurídice apresentou-se e juntos, mas sem se olhar, iniciaram o caminho de volta. Enfrentaram Cérbero e Caronte com o som da lira, como no caminho da ida, e não se olharam de forma alguma. Os dois estavam próximos da saída, já finalizando a íngreme montanha de acesso à superfície quando Orfeu virou-se para ter a certeza da presença de Eurídice. Sem se dar conta de que seu calcanhar esquerdo ainda pisava o último degrau das escadarias, seus olhos se encontraram. Quanto desatino! Ao olhar para a amada, ele mesmo foi a única testemunha de sua derradeira imagem, imediatamente tragada para os Infernos e desaparecida para sempre. Orfeu ficou só, na companhia da mais profunda tristeza.

ORFEU
A composição ORFEU é a música tocada para Hades e Perséfone no Inferno. A música é bem lenta e melancólica, com respirações de silêncios que deixam a melodia suspensa no ar. O tempo foi sentido de forma muito pessoal, mesmo com os compassos regulares. Na parte B, que começa em 0:55 min, a harmonia faz uma sequência de acordes maiores que trazem outra sensação para contrapor a parte A e o improviso que vem logo depois.  A curva longa e lírica da melodia foi uma forma para conquistar o deus do Inferno a fim de que o casal pudesse deixar o submundo e voltar à superfície da Terra.

Pedro Cezar Ferreira

O encontro de Orfeu e Eurídice é uma história de amor, mas também uma narrativa sobre o encanto que a música produz. O som da lira de Orfeu serviu como chave para abrir passagem e atravessar dimensões do tempo e do espaço que não podem estabelecer ligação: a vida e a morte. O mito conta que somente um músico e seu instrumento, através do encantamento e da transformação, pôde entrar no impenetrável reino dos mortos. É inevitável pensarmos no poder do som, já que o deus Hades é o proprietário das chaves da “Grande Região Inferior” e a música consegue permissão para entrar porque abre outra qualidade de tempo.

O mito de Orfeu inspirou muitos compositores que o interpretaram no repertório sinfônico ocidental. Na Antiguidade, o mito também inspirou os membros da confraria de mistérios órficos, os pitagóricos, a inaugurarem os estudos científicos do som.

Filósofo do cosmos e um dos primeiros teóricos do Ocidente, Pitágoras fundou uma religião conhecida como Mestres da Verdade, por volta de 532 antes de Cristo. Esses homens tocavam lira, assim como Orfeu, e realizavam rituais de purificação para livrar a alma da “roda dos nascimentos”, praticando o jejum e o celibato. Eles buscavam conhecimento, acreditavam na verdade como inspiração e revelação divinas e passavam os dias pensando sobre as leis que regem a physis, que é tudo o que existe. Meditavam concentrados nas vibrações das cordas do instrumento e, por isso, ficaram conhecidos como a confraria dos órficos. A vida de Pitágoras é cheia de mistérios, mas uma história muito curiosa se passou entre esse filósofo, matemático, músico e religioso da Grécia e um xamã enigmático da Ásia central chamado Abaris Skywalker.

Paulo Arena

No mundo antigo, o Ocidente e o Oriente trocaram muitas informações e conhecimento de formas pouco convencionais. Era um dia qualquer de vento quando um xamã andarilho foi enviado em missão diplomática para visitar terras gregas. Ele vinha da região de Hyperborea, localizada nos jardins de Apolo, lugar mítico em algum ponto na Ásia central.

Nas sociedades antigas, essas viagens aconteciam periodicamente. Líderes, imperadores e reis procuravam por territórios distantes com o propósito de trocar informações, ampliar conhecimentos, curar doentes e, certamente, aproveitar para expandir o poder político. Abaris Skywalker, o xamã andarilho, iniciou a jornada saindo do Oriente Médio e percorreu longas distâncias a pé empunhando uma flecha misteriosa, sua única companheira.

Durante o percurso, ganhou fama por eliminar doenças e epidemias, por controlar os espíritos escondidos no vento e afastar o mau tempo, mas, principalmente, por ter caminhado distâncias sobre-humanas em estados alterados de consciência. Alguns testemunhos descreveram o estrangeiro, que usava roupas simples, como uma bizarra imagem de um homem a serviço de um deus. Era assim que ele passava os dias, em transe, sem nenhuma expressão ou movimento externo, segurando o deus dentro de si enquanto o corpo era guiado pela flecha. Ninguém o viu se alimentar ou dormir, mas alguns relataram tê-lo visto conversar com o objeto dourado como se falasse com alguém. Ele guiava a flecha ou a flecha o guiava?

Na antiga tradição asiática, a flecha dourada tinha poderes mágicos. Quando arremessada da maneira correta, produzia ruídos, causava medo, ansiedade, curiosidade e outras sensações que fragilizavam os adversários. Nos escritos sobre a lendária região de Hyberborea, há relatos de homens que, enganados pelo som, teriam saído de seus esconderijos para caçar quando, na verdade, era a flecha vibrando, emitindo sons de animais. 

Por fazer contato com vários mundos, a visão do xamã, ao atravessar a realidade das aparências e adentrar a realidade do espírito, é como um certeiro arremesso no alvo. O começo e o fim de um lançamento se encontram fora do tempo cronológico. Atirador e alvo tornam-se um quando a flecha é endereçada ao coração e penetra todo o ser, no ponto mágico onde tudo é possível.

Por saber desse segredo, e depois de muitas andanças, Skywalker encontra Pitágoras e reconhece nele a reencarnação do deus Apolo, um deus originalmente asiático, mas historicamente reivindicado pelos gregos. Identificou no filósofo os atributos do Deus-Sol que, para aquele povo de Hyberborea, era um deus do êxtase e do transe e não do conhecimento e das artes, conforme era reverenciado na Grécia. Com toda a distância entre os dois, o destino os aproximou e, contrariando a tradição grega, Pitágoras se identificou com a descrição do deus estrangeiro. Escolheu alguns objetos que pertenciam à linhagem de reencarnação de Apolo, o vindo de Hyberborea, e demonstrou algumas atribuições e poderes desse deus asiático. Depois do reconhecimento, da aceitação e de longas conversas, Abaris Skywalker entregou para Pitágoras sua flecha de ouro como símbolo de gratidão, de confiança mútua e entendimento secreto entre as duas culturas.

A entrega da flecha simbolizou o compartilhar dos conhecimentos ocultos vindos do Oriente. Inaugurando um mapa de afinidades, Grécia e Ásia Central, nas figuras de Pitágoras e Skywalker, tornaram-se mundos próximos e cúmplices no propósito de compreender as múltiplas dimensões da realidade. Traduzir os planos do mundo físico, do intelecto e espiritual para uma linguagem prática e compreensível foi o trabalho de uma vida para o nosso filósofo do cosmos.

PITÁGORAS E SKYWALKER
A composição PITÁGORAS E SKYWALKER é o encontro de dois estranhos que se reconhecem. Os acordes iniciais foram montados, num ritmo vigoroso, com intervalos de quartas e quintas para usar a matemática dos primeiros intervalos da série harmônica. No 0:39 min, a proposta harmônica muda e a melodia flui, tornando-se mais lírica e menos rítmica. Desejei expressar momentos diferentes da conversa, embates e confluências na troca de pensamentos entre os dois. O ostinatto, repetição rítmica da mão esquerda no 1:13 min, representa as longas caminhadas pelo território grego. 

Paulo Arena

Algum tempo depois das ideias de Pitágoras se espalharem no Ocidente, a concepção de equilíbrio entre o micro e o macrocosmo foi brilhantemente ilustrada por outro filósofo da Antiguidade.

No Livro X de A República, Platão transcreve um diálogo entre Sócrates e Glauco sobre a imortalidade da alma que revela sua natureza divina e eterna. Sócrates conclui que a justiça é o bem supremo e, mesmo depois da morte, os homens são recompensados por essa virtude. Para exemplificar o que acontece aos justos e injustos no julgamento final, ele conta para Glauco a história do valoroso Er, o armênio.

Er foi retirado do campo de batalha e considerado morto por doze dias. Porém, chegado o dia do enterro, ele ressuscitou e contou aos presentes sobre a jornada que sua alma percorreu no além.

 Disse a todos que assistiu, na planície onde estava, ao reencontro de muitas almas que transitavam entre o céu e o inferno. Escutou o lamento pelos castigos e sofrimentos daqueles que estiveram no inferno e o júbilo pelas alegrias e bem-aventuranças daqueles que estiveram no céu.

Depois de sete dias na planície, todos saíram em marcha na direção de um arco-íris que abraçava o céu e a terra. No oitavo dia, tiveram a visão do funcionamento da ordem do cosmos chamado de a Música das Esferas.

O arco-íris era o zodíaco, o maior dos círculos, abraçando os planetas que estavam pendidos num fuso. Eram oito círculos estelares (o zodíaco com os sete planetas) perfeitamente encaixados e girando em velocidades diferentes.

Todo o mecanismo apoiava-se nos joelhos da deusa Necessidade, a senhora do destino. Cada círculo era regido por uma sereia que emitia uma única nota em primorosa harmonia com as notas das demais.

 As oito notas combinavam com o ritmo das órbitas dos círculos. Ouvia-se, no conjunto do sistema, um acorde de grande beleza ordenado ritmicamente.

Sentadas ao redor do fuso, estavam as filhas da Necessidade, as parcas do destino, aquelas que tecem os três fios da grande jornada e conduzem cada ser pela estrada da vida.  Elas acompanhavam o som das sereias e emitiam melodias articuladas com as oito notas enquanto giravam os círculos dos planetas.

Cloto cantava o tempo presente.

Átropo cantava o tempo futuro.

Láquesis cantava o tempo passado.

A parca do presente girava com a mão direita.

A parca do futuro girava com a mão esquerda.

A parca do passado girava com as duas mãos.

Láquesis, a voz do passado e serva da justiça, presidia o julgamento das almas que renasceriam num outro modelo de vida conforme a reverência ou o desprezo que acumularam na existência anterior. Era evidente que o passado, ao girar os planetas com as duas mãos, soava mais alto. A serva da justiça regia a orquestra de um cosmos/vida interligado, fazendo o julgamento necessário dos erros cometidos em vida e direcionava cada alma para a próxima encarnação.

Er e os que estavam com ele testemunharam o sistema cósmico em funcionamento, a mais perfeita ordem celestial equilibrada por uma necessária harmonia providenciada pela Música das Esferas.

Pedro Cezar Ferreira

Er,  Sócrates, Platão e Pitágoras viveram em um tempo em que a ciência e a arte ainda não estavam separadas. Na Música das Esferas, cada som é uma voz que, com as demais, produz uma polifonia e está associada a um ritmo. Trata-se de um sistema no qual alturas e durações interagem. Cada elemento da música parte, ora do giro dos planetas, ora das sereias, ora das melodias das parcas, modelando o conjunto. Em uma obra sinfônica, as partes também se articulam assim. Os timbres, as alturas, as durações, intensidades e articulações das notas têm um lugar predeterminado pelo projeto do compositor. Nessa música cósmica, existe harmonia entre os planetas, as sereias e as parcas onde o conjunto soa como uma experiente orquestra tocando um repertório tradicional. Tudo perfeitamente organizado.

O pensamento teórico da música ocidental tem suas raízes na matemática pitagórica. Pitágoras traduziu a natureza dos números na Música das Esferas estudando as cordas da lira. Na história seguinte, o armênio experimentou a morte, atravessou mundos e testemunhou o poder da música, assim como Orfeu. Er descreveu para os vivos a ideia pitagórica do perfeito funcionamento da cidade espelhados na harmonia da Música das Esferas. Platão ilustrou, com a história de Er, o equilíbrio do microcosmo como espelho do equilíbrio do macrocosmo, uma imagem ideal de justiça e ordem – portanto, uma imagem verdadeira.

Sabemos pouco sobre a vida de Pitágoras, mas é certo que ele contribuiu muito para o estudo da acústica, a física do som, e criou as bases do Quadrivium, as quatro ciências cosmológicas baseadas na matemática. Essas ciências são uma soma, uma totalidade resultante de quatro áreas do conhecimento, quatro assuntos articulados entre si que podem se comunicar através dos números. Vamos entrar na matemática de um jeito diferente, mas o que aprendemos na escola será fundamental:

Aritmética – números puros

1    2    3    4    5    6    7    8    9    10

Os números revelam um sistema de proporções que permite ao pensamento transitar de um conhecimento para o outro, de uma área para outra, de um plano para outro da realidade.  É a porta de entrada para o cálculo do espaço e do tempo através das operações de somar, subtrair, dividir e multiplicar.

As leis matemáticas conectam os quatro assuntos do Quadrivium.

Geometria –  números no espaço


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Para os pitagóricos, o número dez tinha uma forma no espaço bidimensional e foi representado pelo triângulo de base 4 que pode ser desenhado pela imagem geométrica acima, a tetraktis. Esse triângulo é formado por dez unidades (pontos) cuja base e as laterais são o número quatro. Em cima dos quatro pontos da base temos três pontos, depois dois e um, totalizando dez pontos. A razão do nome tetraktis é o fato do triângulo ter lados de quatro pontos pois tetra significa quatro em grego. Trata-se do triângulo isósceles, com lados de mesma medida.

Música –  números no tempo

Nesse plano, os sons são organizados por alturas (notas mais graves e notas mais agudas) e durações (o tamanho das notas, curtas e longas). Os intervalos musicais (relação de distância entre duas notas) foram expressos por proporções numéricas simples. O intervalo de oitava, ou o dobro da frequência (440Hertz e 880Hz, no caso da nota lá) foi representado pela fração 2:1, o intervalo de quinta pela 3:2 (nota lá e nota mi acima) e de quarta como 4:3 (nota lá e nota ré acima).

As durações das notas determinam os ritmos e são relações de metade ou dobro do valor temporal de um som, ou figura rítmica. Por exemplo, a semínima, que equivale a um tempo é o dobro da colcheia que equivale à metade do tempo.

Essa matemática aplicada no tempo produz melodias e harmonias. A totalidade de uma música só acontece conforme o tempo passa, diferente de uma imagem que pode ser apreendida num primeiro instante. Por exemplo, um piano pode ser visto em segundos, mas a música que ele produz só fará sentido com a passagem do tempo.

Astrologia  –  números no espaço e no tempo

Aqui entramos num território mais complexo, mas continuamos com os números, agora aplicados na mandala do mapa astral, na forma de conjuntos, coordenadas e ângulos. Vamos nos ater só aos conjuntos.

Os doze signos do zodíaco astrológico foram agrupados em 2, 3 e 4 conjuntos. No primeiro grupo estão os signos separados por polaridades, os femininos e os masculinos. No segundo grupo estão os signos com a mesma qualidade de movimento: cardinal (impulso e ação), fixo (enraizamento e estabilidade) ou mutável (abertura e recepção). No terceiro grupo estão os signos de mesmo elemento: fogo, terra, água e ar.

Cada signo tem uma polaridade, um movimento e um elemento e, portanto, torna-se único ao representar a qualidade que surge na soma de uma característica de cada conjunto. Áries é o primeiro signo de fogo, cujo princípio masculino e impulso cardinal carrega a potência do nascimento, da força para romper o útero cósmico e surgir como uma singularidade, um indivíduo autônomo. Áries é o signo que rege a primeira casa do zodíaco. Da mesma forma, o número 1, por sua qualidade simbólica, representa o indivíduo, o ponto inicial e o princípio de qualquer assunto porque é único, é a unidade. De acordo com os primeiros filósofos da antiguidade, os números traduzem a natureza do mundo físico. A palavra do latim, numerus, vem do grego, nomós, que significa lei, norma.

O interesse de Pitágoras pela harmonia partiu do entendimento de que a physis é regida pelas mesmas leis que existem nas cordas da lira. Os pitagóricos aprendiam a matemática, para eles uma linguagem divina, através da escuta e observação dos sons da lira. Os números eram a própria physis se manifestando e a physis era compreendida como tudo o que aparece e acontece aos seres vivos, à natureza, ao humano e ao divino. Ela era considerada o próprio acontecimento, o brotar na natureza, as vibrações, os fluxos e os ciclos.

Eles concluíram que quanto maior o tamanho da corda, menor os ciclos de vibrações, ou seja, o comprimento da corda é inversamente proporcional à frequência do som. Para ilustrar essa relação, pense no contrabaixo que toca os sons graves. Ele é um instrumento muito maior do que o violino que toca os sons agudos e os dois são da mesma família das cordas. Quanto maior a corda, menor a frequência!  

Através da contemplação do espírito, da meditação, da observação, da escuta e do estudo, ou seja, da theoria como praticada pelos os antigos, a terra e o céu poderiam ser lidos e interpretados pela ciência da harmonia, a música.

Paulo Arena

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