Paulo Arena

Muito antes de Akin nascer, sua mãe, quando soube que estava grávida, retirou-se para a selva com outras mulheres da tribo à procura de uma grande árvore para juntas rezarem e meditarem. Encontraram um velho e majestoso baobá para abrigar a roda de mulheres que fez nascer a canção da criança.

Deste lado da vida e depois de respirar, Akin ouviu pela primeira vez a canção que lhe pertencia. O menino foi crescendo com saúde até que chegou o dia de se juntar às outras crianças para aprender as histórias da tradição que compartilhavam. A vida das crianças era algo muito importante para essa comunidade. No dia em que os pequenos aprendiam suas canções, toda a gente estava lá para cantarem juntos.

Já feito homem, pronto para unir à mulher que lhe daria filhas e filhos e com quem aprenderia a ser esposo e pai, Akin escutou novamente a canção entoada por todos que compareceram no dia do seu casamento.

A vida seguiu como seguem as águas do riacho e, quando chegou a hora de desaguar no oceano, quando sua alma estava pronta para ir ao outro lado da vida, todos os familiares e amigos aproximaram-se. Pela última vez, Akin ouviu sua canção da mesma maneira como aconteceu no dia de seu nascimento. Embalado pelo som, fez a travessia, transformando-se em espírito ancião.

 Ao percorrer mentalmente os momentos mais marcantes da vida, ele recordou a ocasião em que foi levado para o centro do círculo formado por todos os membros da comunidade. Esse episódio ocorreu porque Akin havia roubado várias sementes reservadas para semear a terra. O desejo de fabricar um chocalho foi maior do que o de seguir o comportamento que a mãe e o pai lhe ensinaram. Ele havia cometido um ato que prejudicou os membros da tribo. Nesse dia, todos cantaram a sua canção para lembrá-lo de sua verdadeira identidade.

Akin sentiu um orgulho maior do que o próprio peito. Ele pertencia a uma tradição que não acreditava no castigo como correção para as condutas antissociais. Cresceu sabendo que quem nasce com uma canção para si não tem necessidade de prejudicar ninguém. Os amigos conhecem e cantam sua canção se porventura você se esquecer.

 A canção da origem recorda sua beleza quando você se sentir feio, integra suas partes quando se sentir quebrado, recupera a sua inocência quando se sentir culpado e relembra seu propósito quando se sentir confuso.

Agora Akin era mais do que uma gota entregue ao oceano. Sem perder o próprio contorno, sentiu-se parte do todo. Sua tribo e ele, embalados na canção, tornaram-se o oceano.

AKIM
A composição AKIM é a canção recebida pelas mulheres para o nascimento do menino de Gana. A cantora moçambicana Selma Uamusse, no dia da gravação, me disse que conta essa história para as filhas. É uma tradição que ainda hoje permanece viva.
Os versos foram feitos a partir da forma poética japonesa dos haikais. A poetisa Camila Jabur fez os haikais e me deixou brincar com as frases para compor uma nova história. O espírito da criança foi trazido pelo vento, como um presente em forma de música, antes mesmo do nascimento físico. Na rítmica do piano há uma sobreposição que acontece muito na música&dança africana, um pulso em 2 e outro em 3 tempos.
² Segundo a poetisa de Gana Tolba Phanem, adaptado por Camila Lordy.

Paulo Arena

Nem luz, nem escuridão, nem som, nem silêncio. Nyambé, o deus criador do povo banto, estava cercado pelo nada, nada mesmo, só um vazio entediado.

No começo, o tempo era parado porque não havia o sol nem as estrelas, e o deus criador vagava de um lado para outro totalmente desanimado. Caminhando para lá e para cá, deu-se conta que podia conversar consigo mesmo e escutar sua própria consciência. Então perguntou à sua imaginação o que havia para ser feito, como poderia preencher o nada e abandonar o desânimo.

Sentiu a resposta brotar como a primeira gota de tinta num papel vazio. A voz vinda de dentro disse:

— Apanhe um fruto e uma das metades cubra com lâminas de metal. A kalimba! Faça a kalimba! —  Nyambé ouviu da sua imaginação.

Então, o deus criador fez o instrumento conforme encomendado, seguindo as instruções da consciência e no mesmo instante tocou a primeira lâmina. Ele ficou maravilhado! Seu corpo foi tomado pelas ondas, pelo som que percorreu todo o espaço. O balanço das notas saídas da kalimba movimentou o nada produzindo calor e fez surgir o sol com sua luz quente.

Nyambé tocou mais uma lâmina e viu brotar o céu, as estrelas, o mar e os rios. Encantado com o que ouvia e via, continuou a tocar e logo apareceu o homem, a mulher e muitas crianças que correram em todas as direções. O vazio ganhou forma através do som da kalimba. Agora o mundo era habitado e Nyambé podia conversar, já não estava só e não reconhecia mais o desânimo. Começou a tocar o instrumento e falou para as árvores que viu humanos de todas as cores nascerem da kalimba, brancos e negros, amarelos e vermelhos. Sentiu o coração bater mais forte porque sabia que as crianças nasciam do amor dos bantos por toda a humanidade, sem distinção.

NYAMBÉ
A composição NYAMBÉ é o gesto do Deus banto tocando a kalimba. O piano faz uma melodia muito rápida nas teclas pretas, imitando uma kalimba, e o tema é transposto até a harmonia estabilizar num acorde onde as notas “explodem” simbolizando o momento da criação do Deus. Cheny Wa Gune, músico moçambicano, toca uma timbila (kalimba) que entra na segunda parte, momento de calma do piano. Depois, piano e timbila voltam para continuar a criação do mundo com muitas notas, voltando ao mesmo tema inicial, com ritmo vigoroso.

Paulo Arena

A África é um território imenso com culturas, etnias e línguas distintas. Esse continente abriga o povo mais alto do mundo, os Watusi e o povo mais baixo do mundo, os pigmeus Mbuti. Mesmo com tantas diferenças sociais e culturais, por qual razão fomos acostumados a escutar e ler “cultura e civilização africana” no singular e não no plural? 4

Temos o hábito de falar da África, no singular, porque existe um rosto cultural único, uma fisionomia própria presente nas estruturas tradicionais, nos domínios da arte, da língua, do casamento, da família, da política, dos sistemas de crenças e visões de mundo. Este modo de vida global faz parte da construção de uma cultura oral. É dessa África no singular que partem os conceitos de totalidade, de integração, de conjunto dinâmico e holístico, uma visão de mundo própria à africanidade.

A africanidade é uma característica dos países que estão abaixo do deserto do Saara e pertencem à tradição oral. Mas há também os países acima do deserto do Saara, como o Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Egito que são chamados de África árabe, conhecidos pela tradição muçulmana da escrita e pela herança do livro. A separação do continente africano em dois mundos não se relaciona com as diferenças das cores de pele das pessoas e sim com a predominância da tradição oral ou da tradição escrita na organização dessas sociedades. Perceba que os termos África negra e África branca, muito usados para falar das diferenças, não ilustram as características dos dois mundos.

Na tradição oral, a expressão do som, da voz, do corpo e dos instrumentos são habilidades sociais e não técnicas. Aquilo que chamamos de música é a manifestação de uma força coletiva cujo propósito é a comunicação e a união das pessoas, um alimento para o pertencimento ao grupo. Todos e todas praticam as atividades musicais. A música não é feita para ser uma especialidade individual ou para ser apresentada em espetáculos formados por artistas e plateia. Os concertos, shows, recitais e performances são acontecimentos estrangeiros à africanidade.

Música&dança são inseparáveis e a forma de escrita que junta as palavras descreve bem essa ação conjunta. A prática cotidiana de cantar, dançar e tocar faz parte do convívio social e religioso em todas as comunidades. Do nascimento até a morte está presente na vida cotidiana. O ritmo estabelece a conexão entre o movimento corporal, a fala, o canto e os tambores. No canto, no toque e na dança, o tônus físico é construído com um refinado senso de balanço. A diversão ajuda a treinar a mente na arte de manter-se acima de confusões nos momentos de crise. Música&dança contribuem para desenvolver competências que serão importantes na vida comunitária, como liderar e seguir liderança, pensar no grupo e comportar-se visando o benefício de todos sempre que necessário. Aqui no Brasil, as crianças quando podem brincar cantando, dançando e batendo palmas, estão mais próximas dessa forma de aprender.

Agora você verá que eles vão mais além do que nós quando o assunto é som. A vitalidade pulsa no cantor e na canção, no músico e no tambor. A vida se manifesta nos seres humanos, mas também nos objetos. Em muitas línguas e dialetos, como por exemplo na língua Ewe (Gana, Togo e Benin), não existe uma palavra específica para ritmo ou música. Cada som é nomeado de acordo com sua característica. Por exemplo, usa-se a expressão “linguagem do tambor” quando se tratar dos ritmos que saem dos instrumentos de percussão. A expressão “a canção passou por baixo dos tambores” é usada quando um cantor atravessa o ritmo. A expressão “as cabaças não estão de acordo” é usada para qualquer ritmo atravessado. Expressões como essas mostram que o tambor, a canção e as cabaças têm vida e vontade próprias.

Outra característica da africanidade é que, em muitas línguas, a palavra religião é desnecessária porque a espiritualidade não foi institucionalizada. Ela faz parte das ações mais triviais do dia a dia. A religião não está reservada para momentos ou locais específicos, tampouco existe separação entre o que é sagrado e o que é profano.  Na africanidade, a magia e a feitiçaria servem para manipular a força vital disponível no universo. A palavra, o gesto e os elementos da natureza são utilizados para canalizar essa força vital para cura ou morte, conforme o uso que se fizer desses instrumentos. Aquela ou aquele que manipular os elementos na magia tem que cultivar uma consciência para o bem da comunidade, porque lida com o destino coletivo. Os benefícios da força vital devem ser distribuídos para melhorar a vida de todo mundo.

A vida e a morte fazem parte de um tempo indeterminado. A morte não é uma ruptura, mas uma mudança de estado qualitativo e o espírito está integrado na força vital. Por isso, os funerais são festejados com dança, música de tambor e canto, comida e oferendas sagradas para celebrar a ancestralidade. A morte é protetora e conselheira dos vivos, está presente como um contraponto da vida e atua como outra forma de intervir e participar.

Somos todos afrodescendentes. Há cem mil anos, os parentes mais próximos do Homo Sapiens saíram do continente africano para povoar outras terras. Próximo às nascentes do rio Nilo, aos pés da montanha da Lua, no vale da Grande Fenda, onde se encontram os grandes lagos, viviam os primeiros homens e mulheres da nossa espécie. O berço da humanidade e a origem dessa história, ainda que muito distante no tempo, começou em terras africanas.

⁴ Essa questão, sobre a possível unidade cultural de um território tão complexo como a África, foi proposta e respondida por Kabengele Munanga no livro didático Origens Africanas do Brasil Contemporâneo.

Pedro Cezar Ferreira

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