Paulo Arena

Paulo Arena

Todas as noites, as crianças Yanomami escutam a floresta falar. Já era tarde quando os xapiri desceram ao encontro de Davi pela primeira vez, enquanto ele sentia o calor do fogo se espalhando na oca, deitado na rede da mãe. Eram muitos, bonitos e enfeitados, mas uma visão assustadora, pois o menino jamais tinha visto espíritos. A partir dessa noite, Davi passou a ter muitos sonhos. Conta-se, na aldeia, que as crianças que podem se tornar xamãs sempre sonham que estão a voar. Ele se via sobrevoando a floresta com os braços feito asas, como as araras vermelhas.

Um pouco mais velho, Davi costumava brincar perto dos adultos que trabalhavam para afastar os maus espíritos. Algumas vezes, os adultos ofereciam soprar o pó de yãkoana em suas narinas. O menino, no silêncio do ver/fazer, aceitava por curiosidade, mas sentia que, aos poucos, tornava-se fantasma provocado por outros estados na sua consciência. Deitado na rede, ficava esperando as imagens magníficas dos espíritos do céu e dos rios. Sempre curioso, Davi cresceu e aprendeu a “pensar direito” indo buscar na tradição da sua tribo a razão de ser das coisas e reconhecendo que as palavras dos mais velhos eram verdadeiras. O jovem passou a responder ao chamado dos xapiri e os espíritos o visitavam com frequência, vindo dançar e pendurar suas redes em sua nova habitação, o seu corpo e sua mente. Decidiu então preparar-se para recebê-los e tornar-se sua morada.

Davi conheceu a beleza e a força dos xapiri porque estava compromissado com sua gente, com o desejo de curar os parentes e amigos de seres maléficos e das fumaças de epidemia, doenças e mazelas vindas de fora. Durante dias fez jejum, não comeu carne de caça, passou por provações, bebeu e cheirou yãkoana até seu corpo ficar imóvel, prostrado e coberto de poeira na praça central. Sua cabeça doeu, seus olhos morreram e finalmente ele virou “outro”. Dias se passaram e ele ficou irreconhecível pela magreza e sujeira, ele agora era fantasma e pôde ouvir com clareza as palavras dos espíritos. Davi, depois de morrer para esta vida comum, começou a escutar e ver um outro mundo, a abrir o pensamento para se tornar um xamã. Tomado de yãkoana, apreciou inumeráveis cantos melodiosos, apitos de silvo agudo e pode ver a dança de apresentação que os xapiri executavam ao entrar na casa de seus anfitriões. Depois do batismo, ele também se tornou morada de espírito, fazendo como os mais velhos ao abrirem as portas. Finalmente, ele podia receber os xapiri em sua própria casa.

Feito xamã, Davi contou para todos que os cantos dos espíritos soam sem parar, uns após os outros, sem trégua. Cada xapiri possui seu próprio canto e por isso as melodias são tão numerosas quanto as folhas das palmeiras. Soube pelos espíritos que poderia cantar sem nunca repetir uma melodia por causa de árvores chamadas amoa hi.

Os xapiri disseram que, nos confins da floresta, lá onde a terra termina, onde estão fincados os pés do céu, existem árvores muito grandes, cobertas por uma penugem brilhante e de uma brancura ofuscante. 

Os espíritos aprendem com as árvores de cantos amoa hi e colhem melodias que guardam em seus grandes cestos, assim como fazem os gravadores dos brancos. 

Sussurrando nos ouvidos do xamã, disseram que nos tempos primordiais, o criador Omama plantou estas antigas árvores amoa hi. Elas possuem troncos cobertos de lábios que se movem e cantam sem parar. Dessas inúmeras bocas, dispostas umas em cima das outras, saem melodias belíssimas que nunca se repetem, melodias tão numerosas quanto as estrelas no peito do céu. É inesgotável o som das árvores de cantos amoa hi e os xapiri tratam de escutar as melodias com muita atenção. Todos os cantos aprendidos pelos xamãs foram colhidos nesses confins e os espíritos sabem reproduzir exatamente o som das amoa hi para espalhar tal graça para todos na tribo.

Davi falou sobre a beleza da música. Ela não é exclusividade dos povos da floresta porque existe uma árvore correspondente a cada modo de falar e há muitas amoa hi nos confins das terras dos brancos. Os Yanomami sabem da força e da grandeza das nossas melodias. As nossas partituras são registros em papeis da beleza que se deve às árvores de canto. O xamã disse que as máquinas de reproduzir dos brancos fixam as notas em peles de imagens, folhas cheias de desenhos de que gostamos tanto. Os indígenas preferem guardar os sons trazidos pelos espíritos no pensamento ou no coração. Não precisam de imagens de peles retiradas de árvores mortas, nem precisam de desenhos para não esquecer os sons. As melodias ficam gravadas dentro do corpo do xamã, de cada criança, de cada mulher e homem da tribo. Davi relembra a todos como os espíritos da floresta e suas melodias se renovam, como as melodias são infinitamente produzidas pelas árvores com troncos de bocas que cantam. Para os Yanomami, ao escutar os espíritos, a música sempre estará disponível e nunca se repete.

AMOA HI
A composição AMOA HI é a visita do xamã, junto com os espíritos xapiri, às árvores de cantos nos confins da Terra. As flautas, suspiros e vozes são os sons dos pássaros e dos espíritos descansando nas árvores com troncos cobertos de bocas. No 2:00 min, entram os sons das bocas da árvore amoa-hi que permanecem até o fim da composição. As notas da melodia no piano fazem uma curva melódica grande, com uma subida de notas seguidas de uma resposta descendente, como um voo que ganha e perde altura. Os compassos mudam de tamanho porque trata-se de um tempo livre, irregular. 
⁵ Davi Kopenawa em A queda do Céu, adaptado por Camila Lordy.

Pedro Cezar Ferreira

Contam os Tupi-Guarani que o pai de todos brotou de seu próprio brotar. Em seguida, apareceram o céu e a terra e, do casamento entre eles, surgiram todas as outras coisas, as plantas, rios, estrelas, o homem e a mulher. Ñmandu fez da criação o eco de sua palavra para escutar a todos e, com isso, se alegrar. Por essa razão, esse deus é chamado de a “grande escuta” ou o “todo ouvir” e nós somos a reverberação do primeiro som.

Para eles, um avaeté é o ser verdadeiro que aprendeu a escutar com o coração a melodia escondida em cada corpo, em cada forma criada pela “grande escuta”. Aprender a escutar é a grande tarefa do ser humano.

Um avaeté sabe que numa caçada o animal deve ser ouvido e respeitado. Antes de tentar abatê-lo, o caçador, internamente, lhe pede desculpas por sua morte pois todos querem viver. Mas se o acaso desviou o destino dos dois, se o alvo não foi atingido ou uma onça afugentou a caça, o caçador não se perturba. O importante não é o caminho da flecha, mas a atitude de respeito pelo animal e o caçador agradece mesmo assim, porque o canto do bicho continuará ressoando pela mata.

Para os Tupi-Guarani, aquele que se torna um ser de escuta sente, em cada estação do ano, a presença de Ñmandu ficar intensa, porque está atento aos diferentes sinais da natureza e ao canto que lhe é próprio: na chegada da primavera, ouve-se os ecos juvenis do viço da floresta; no verão, a majestade do sol com seu calor que faz as frutas amadurecerem; no outono, ouve-se a despedida das folhas das árvores; no inverno, o descanso das plantas sendo alimentadas pela seiva da terra. Vivenciar a grande escuta nas estações do ano, ser atravessado pelos sons do ambiente é transformar-se num avaeté, o ser verdadeiro que aprendeu a escutar. Nessa pequena história, contada muitas vezes em torno da fogueira, a mulher que engravidou de Kuarahy, a face sagrada de Ñmandu na presença do verão, não seguiu jornada com seu companheiro quando ele precisou partir. Ela decidiu que se encontraria com ele só depois de parir a criança e garantir a saúde do pequeno ser. Porém, a saudade cresceu mais rápido do que o filhinho e ela se pôs a caminhar mesmo sem conhecer o destino. Onde estaria Kuarahy? Como poderia alcançar seu amado e manter os cuidados com o bebê? Muito atenta, a jovem mulher escutou o coração do bebê acomodado em seu seio e seguiu as direções indicadas pelo pequeno que, sem saber falar, sinalizou o caminho. Os dois avaetés, mãe e filho, foram guiados e sabiam onde beber água, onde descansar, qual rio atravessar e quais atalhos percorrer. E assim, de escuta em escuta, eles chegaram até Kuarahy.

ÑMANDU
A composição ÑMANDU é o deus Tupi-Guarani e os ecos da criação. O tema feito nas frases melódicas do piano repete bastante, sugerindo o eco produzido a partir da fala do deus da “grande escuta”, uma ressonância da sua voz. No 0:40 min entra o ritmo do maracatu e o contrabaixo dobra as notas graves junto com o piano. No 1:16 min, o tema inicial volta em outra região, dessa vez com acordes mais graves.
⁶ História contada por Leonardo Boff em Casamento entre o Céu e Terra, adaptado por Camila Lordy.

Pedro Cezar Ferreira

Para os povos da floresta, sabedoria é conhecer a história, o percurso do som até encontrar repouso naquilo que nomeia. Os indígenas brasileiros encontram-se com sua tradição ao aprender o nome das coisas, assimilando a trajetória de como a palavra chegou na sua morada.

Para os Tupi-Guarani, o espírito, morada do ser, é feito de silêncio e som e a vida é o espírito em movimento. Toda criação recebe um nome para si, guarda um som e, por isso, deve entoar sua própria fala afim de existir para o deus Ñmandú. Tudo fala: o riacho, as aves, as montanhas.

O Tupi-Guarani Kaka Werá Jecupé tem um nome que lhe serve de escudo e o protege como um patuá. Seu nome é uma assinatura que atesta a qualidade da natureza da qual descende. Ele é o neto do trovão e bisneto de Tupã. Ao fazer a apresentação em seu livro, A Terra dos Mil Povos, ele diz:

— Werá Jecupé é o meu tom, ou seja, meu espírito nomeado.

Os mais antigos habitantes do Brasil se autodenominavam Tupi. “Tu” significa som ou barulho e “pi” significa pé ou assento, ou seja, a comunidade daqueles que tem “som-de-pé”, som assentado, entoado. Tupã, o senhor dos trovões e tempestades é uma palavra composta por “tu” = som e “pã”, que significa expansão ou fluir, ou seja, o Deus do grande som.

Brincando com o som das palavras, os mais antigos descendentes ancestrais Tupi-Guarani e Tupinambá intuíram técnicas para afinar o corpo físico, desenvolveram formas de entrar em sintonia e comunhão com o grande espírito através do canto, da dança e dos instrumentos musicais. Cada ser Tupi, o ser “som-de-pé”, expressa através do corpo a harmonia com Tupã, o grande espírito som.

Pela expressão corporal, pelo canto, dança, pelas flautas e maracas, o indígena afina seu ser no coração da mãe terra, do pai sol e pronuncia as vogais Ÿ, U, O, A, E, I, os tons essenciais formadores do espírito. Todos dançam, cantam e tocam no pulsar do amor incondicional produzido pela floresta para expressar o som e o silêncio.

Você conhece a história do seu nome? Muitos seres da floresta acreditam que o som do nome próprio é um espírito provido de assentamento. Nessas comunidades, a criança espera ficar adulta para ganhar seu nome como confirmação da história da sua ancestralidade. Os Yanomami, indígenas da fronteira do Brasil com a Venezuela, possuem um tronco linguístico próprio e nomeiam suas crianças com um apelido, tradicionalmente dado por tios, tias ou avós. Na idade adulta, estes apelidos tornam-se um insulto porque, geralmente, são uma caricatura da personalidade, como por exemplo “dorminhoco”. Quando finalmente crescem e podem receber um nome, não aceitam ouvir o apelido. Estranhamente, o adulto Yanomami fica furioso ao ouvir seu nome adulto que será pronunciado só quando ele estiver distante. Mesmo assim, é muito valoroso para eles e, da mesma forma para a tradição Tupi-Guarani, receber um nome adulto. O nome, portador do espírito, é a confirmação da maturidade marcada por cerimônia e provas de iniciação.

O respeito pela força das palavras é praticado no Ñaumu, o diálogo cerimonial ancestral Yanomami, descrito pelo xamã Davi Kopenawa7. O diálogo começa no anoitecer e segue até o nascer do sol, trazendo notícias para toda comunidade e para os visitantes. O Ñaumu,  acontece durante toda a madrugada, entoado pelos homens que aprenderam a falar a língua cerimonial. Os corpos ficam encostados ombro a ombro e acomodam-se assim, emitindo sílabas que fazem sentido conforme o diálogo se constrói. Algo muito distante do que nós brancos chamamos de conversa.

 Durante o Ñaumu, a fala é muito rápida, ouve-se um som ininterrupto, sem pausa entre as sílabas de um homem e as sílabas do outro, como um tique-taque alternado. Nesse manto sonoro, aos poucos, o diálogo e a comunicação das notícias começam a acontecer. Os presentes escutam relatos sobre a morte, informes sobre o trabalho comunitário, alertas para que não falte comida, notícias dos conflitos, acerto de trocas materiais e matrimoniais com os vizinhos, enfim, escutam notícias importantes para a comunidade. Os escolhidos para realizar o diálogo ancestral sabem que as palavras não devem machucar ou provocar raiva, mesmo se as notícias forem ruins. Este cerimonial é uma maneira de unir o povo Yanomami e, por isso, as palavras certas são escolhidas com preciosismo e espírito amoroso para garantir a união e evitar qualquer conflito entre os presentes.    O indígena brasileiro é um ser humano que elaborou sua cultura, sociedade, tecnologias e cosmologias a partir de experiências e vivências ligadas à natureza e à floresta. Não existe separação entre o indígena e seu meio ambiente porque a floresta é a Mãe, a fonte criadora de tudo o que existe, incluindo ele próprio. As duas histórias expressaram uma natureza viva que fala, escuta, soa e harmoniza a vida de todos os povos. Entender a vida dessa maneira é saber que todas as coisas abrigam um som e um espírito porque têm um nome próprio. Somos eco da palavra primeira do Criador e nossos nomes carregam a sua voz.

⁷ Entrevista concedida por Davi Kopenawa no livro IHU.

Pedro Cezar Ferreira

próximo capítulo: